VARIAÇÕES

VARIAÇÕES

terça-feira, 31 de maio de 2011

BARATO TOTAL - Gilberto Gil


Lá, lalalalalalalá

Quando a gente tá contente
Tanto faz o quente
Tanto faz o frio
Tanto faz
Que eu me esqueça do meu compromisso
Com isso e aquilo que aconteceu dez minutos
[atrás

Dez minutos atrás de uma idéia já dão
Pra uma teia de aranha crescer
E prender
Sua vida na cadeia do pensamento
Que de um momento pro outro começa a doer

Lá, lalalalalalalá

Quando a gente tá contente
Gente é gente, gato é gato
Barata pode ser um barato total
Tudo que você disser deve fazer bem
Nada que você comer deve fazer mal

Quando a gente tá contente
Nem pensar que tá contente
Nem pensar que tá contente a gente quer
Nem pensar a gente quer
A gente quer, a gente quer
A gente quer é viver

Lá, lalalalalalalá

sexta-feira, 27 de maio de 2011

PAVIO DO DESTINO - Sérgio Sampaio

O bandido e o mocinho
São os dois do mesmo ninho
Correm nos estreitos trilhos
Lá no morro dos aflitos
Na Favela do Esqueleto
São filhos do primo pobre
A parcela do silêncio
Que encobre todos os gritos
E vão caminhando juntos
O mocinho e o bandido
De revólver de brinquedo
Porque ainda são meninos

Quem viu o pavio aceso do destino?
... do destino

Com um pouco mais de idade
E já não são como antes
Depois que uma autoridade
Inventou-lhes um flagrante
Quanto mais escapa o tempo
Dos falsos educandários
Mais a dor é o documento
Que os agride e os separa
Já não são mais dois inocentes
Não se falam cara a cara
Quem pode escapar ileso
Do medo e do desatino

Quem viu o pavio aceso do destino?
... do destino

O tempo que é pai de tudo
E surpresa não tem dia
Pode ser que haja no mundo
Outra maior ironia
O bandido veste a farda
Da suprema segurança
E o mocinho agora amarga
Um bando, uma quadrilha
São os dois da mesma safra
Os dois são da mesma ilha
Dois meninos pelo avesso
Dois pequenos Valentinos...

Quem viu o pavio aceso do destino?
... do destino


sábado, 21 de maio de 2011

PONTA DE AREIA


Ponta de areia
ponto final
Da Bahia-Minas
estrada natural
Que ligava Minas
ao porto ao mar
Caminho de ferro
mandaram arrancar
Velho maquinista
com seu boné
Lembra o povo alegre
que vinha cortejar
Maria fumaça
não canta mais
Para moças flores
janelas e quintais
Na praça vazia
um grito um oi
Casas esquecidas
viúvas nos portais

Milton Nascimento

sexta-feira, 20 de maio de 2011

MESTRE JONAS


"e ele diz que se chama Jonas
e ele diz que é um santo homem
e ele diz que mora dentro da baleia
por vontade própria
e ele diz que está comprometido
e ele diz que assinou papel
que vai mantê-lo dentro da baleia
até o fim da vida
até o fim da vida
até subir lá pro céu"

Zé Rodrix

"Recordar é reviver"

sexta-feira, 13 de maio de 2011

VENTO DE MAIO - Telo e Márcio Borges

Vento de maio rainha de raio estrela cadente
Chegou de repente o fim da viagem
Agora já não dá mais pra voltar atrás
Rainha de maio valeu o teu pique
Apenas para chover no meu piquenique
Assim meu sapato coberto de barro
Apenas pra não parar nem voltar atrás
Chegou de repente o fim da viagem
Agora já não dá mais...
Vento de raio rainha de maio estrela cadente
Chegou de repente o fim da viagem
Agora já não dá mais pra voltar atrás
Rainha de maio valeu o teu pique
Apenas para chover no meu piquenique
Assim meu sapato coberto de barro
Apenas pra não parar nem voltar atrás
Rainha de maio valeu o teu pique
Apenas para chover...
Nisso eu escuto no rádio do carro a nossa canção
Sol girassol e meus olhos abertos pra outra emoção
E quase que eu me esqueci que o tempo não pára
Nem vai esperar
Vento de maio rainha dos raios de sol
Vá no teu pique estrela cadente até nunca mais
Não te maltrates nem tentes voltar o que não tem mais vez
Nem lembro teu nome nem sei
Estrela qualquer lá no fundo do mar
Vento de maio rainha dos raios de sol
Chegou de repente o fim da viagem
Agora já não dá mais pra voltar atrás
Rainha de maio valeu o teu pique
Apenas para chover no meu piquenique
Assim meu sapato coberto de barro
Apenas pra não parar nem voltar atrás
Rainha de maio valeu o teu pique
Apenas para chover no meu piquenique...

segunda-feira, 9 de maio de 2011

TRÊS DIAS DE VENTANIA - Leoni e Malaguti

Três dias de ventania e só
Foi tudo o que aconteceu
Quem pode contar a história amor?
Ficar com a minha dor
Foi tudo poeira e confusão
E quando chegou ao fim
O vento que vem do coração
Bateu dentro de mim

Nunca vou saber o que é que fez tudo mudar
Sei que o vendaval se desviou voltou pro mar

Três dias de ventania e só
Foi tudo o que aconteceu
Ninguem matou, ninguem morreu
Além do amor, transformado em pó
Ninguem matou, ninguem morreu
No final foi tudo ventania e só

Tres dias de ventania e só
Foi tudo o que deu pra ser
Enquanto vc deixou rolar
Eu voava com vc
Mas quando vc tentou fazer
O vento lhe obedecer
As nuvens chegaram pra ficar
E aí pode esquecer

Nunca vou saber o que é que fez tudo mudar
Sei que o vendaval se desviou, voltou pro mar

Três dias de ventania e só
Foi tudo o que aconteceu
Ninguem matou, ninguem morreu
Além do amor, transformado em pó
Ninguem matou, ninguem morreu
No final foi tudo ventania e só
No final foi tudo ventania e só
No final foi tudo ventania e só




terça-feira, 3 de maio de 2011

EXTINÇÃO

O lobo-guará é manso

foge diante de qualquer ameaça

é solitário

avesso ao dia, tímido

detesta as cidades

onde quase sempre é atropelado

onívoro, com mandíbulas fracas

come pássaros, ratos, ovos, frutas

às vezes, quando está perdido,

vasculha latas de lixo nas ruas

engasga ao mastigar garrafas

de plástico ou isopores

se corta e ou morre ao morder

lâmpadas fluorescentes

ou engolir fios elétricos

morre ao lamber inseticidas

ou restos de tinta

ou ao engolir remédios vencidos

ou seringas e agulhas descartáveis

dócil, sem astúcia,

é facilmente capturado e morto

por traficantes de pele

quando então uiva



Poema de Régis Bonvicino