VARIAÇÕES

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sábado, 29 de outubro de 2016

PASSADO

A velha senhora era levada todos os dias, na parte da manhã para tomar sol na varanda da velha casa em que morava com seus dois gatos e suas auxiliares que eram, Adélia e Francisca.
Seus parentes não a visitavam mais. Ela tinha três filhos, mas apenas um a visitava com frequência.

A velha senhora se chamava Marina, e estava com oitenta e cinco anos. Vivia de lembranças e não podia caminhar, precisava ter sempre em sua companhia uma de suas auxiliares. Ela costumava dizer que seus dias agora estavam escuros e frios, mas que mesmo assim ela queria continuar viva. O assunto morte não fazia parte de suas conversas. Ela adorava falar do passado e de como tinha sido uma bela mulher. Suas auxiliares cansavam de ouvir suas histórias, mas eram pacientes e ouviam com atenção aquelas falas repetitivas.
Algumas vezes a velha senhora chorava muito, achava que era injusto ficar tão só e tão doente, dizia com frequência que se pudesse voltar ao passado teria feito muitas coisas diferentes. Achava que perdera tempo com coisas inúteis e que poderia ter cuidado melhor da saúde.

Muitas vezes a velha senhora repetia uma  fala que dizia assim: Tenho muito tempo. As horas passam arrastadas e quase não durmo a noite. Hoje, se eu tivesse saúde poderia fazer muitas coisas, mas não posso fazer quase nada, estou presa, não posso me movimentar... estou viva!  Isso me basta, tenho que me conformar.

Lita Duarte

segunda-feira, 3 de outubro de 2016

BASTA UMA ÚNICA LEMBRANÇA

"Ficai, pois, a saber que não existe nada mais sublime e forte, mais saudável e benéfico para o futuro da nossa vida do que uma boa recordação, especialmente da infância (...)
Falam-nos muito de educação, mas uma bela e sagrada memória, guardada desde a infância, é talvez a melhor educação.
Se uma pessoa acumular muitas recordações dessas nos primeiros anos, será salva para o resto da vida. Mesmo que haja apenas uma única lembrança boa no nosso coração, pode um dia servir para que nos salvemos."


 Dostoiévski, in "Os Irmãos Karamázov"